A boa nova anunciada à natureza

“A boa nova anunciada à natureza” é o escândalo que a minha época não aceita. O Ser existe como beleza, mas nós perdemo-lo e percorremos toda uma órbita excêntrica para o voltar a encontrar.

A Boa Nova dirige-se à Terra no seu todo: não só porque nesta se desenvolveram entidades irredutíveis mas também porque é no seu todo que está ameaçada.

Deixou de se formar a partir da Beleza.

A ideia de que tudo o que não é humano tem, tal como o humano, necessidade de redenção, é vital para nossa continuação aqui, ou noutro lugar.

No momento da posse, no poema de 11 de junho (poema que nunca foi encontrado) tudo participa nas diversas partes: a boca, a copa frondosa, o cogumelo, a falésia, o mar, a erva rasteira, a leve aragem, os corpos dos amantes. Os três sexos que movimentam a dança do vivo: a mulher, o homem, a paisagem.

Esta é a novidade: paisagem é o terceiro sexo.

LLANSOL, Maria Gabriela. Onde Vais, Drama-Poesia? Lisboa: Relógio D’Água, 2000. P.44

“Árvore Mãe” © Noêmia Maxakali 

2 thoughts on “A boa nova anunciada à natureza”

  1. Queridos,

    Este site, aos meus olhos, está cada dia mais maravilhoso. E, ao me deparar aqui com as palavras da minha querida Llansol, trazendo esta boa nova anunciada à natureza — a paisagem como terceiro sexo — não posso deixar de sublinhar as palavras recentes de Ailton Krenak sobre a “mensagem feminina da terra”. Então, como é um pensamento verdadeiro o que vejo se construir aqui, neste site que coloca em diálogo sutil as línguas indígenas e as línguas dos brancos, gostaria de encerrar meu comentário enviando este belíssimo vídeo-canção de Arnaldo Antunes:
    https://youtu.be/aXqb1SK52ks. Se puderem publicar neste site, acho que teremos mais uma camada de textualidade.

    1. Querida Lúcia, coordenadora do nossa rede de cooperação de Intervenções Bárbaras. Você trouxe do além-mar o texto que ampliou definitivamente as rotas de perambulação dos povos da floresta. Nossa eterna gratidão.

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