A Jiboia

Cada centímetro da casa
O conhecimento dos cantos
Poesia – jiboia
Os tongos e ditongos da palavra.

Laboratório de Interculturalidade é um espaço que estamos criando com o espírito tradutório da jibóia; e a jibóia tem a natureza da linguagem, assim como o cipó e todas as lianas da floresta, que passam no entremeio dos outros, sempre vendo e escutando.

Qual a maneira de ensinar a ler? Como ajudar a construir as ciências dos povos cuja língua materna não é o português? A jibóia há de nos ensinar a achar um caminho tranquilo na floresta.

Sabemos que a Universidade tem a função social de pesquisar, indicar políticas públicas, abrir caminhos. Então, o princípio gerador do laboratório de pesquisas que estamos implantando na UFAC, com o apoio do CNPq, da Funai, da OPIAC, e de todos os parceiros que pudermos articular, é a escola indígena. O resultado de nossas experiências deverão nos levar a um caminho para uma boa educação escolar no múltiplo Brasil em que estamos.

Um Estado como o Acre, por exemplo, nunca terá uma educação de qualidade, sem um ensino que venha da floresta, seu meio ambiente predominante, já que qualquer escola que se preze ensina mesmo é a bem viver em comunidade, com liberdade de consciência e dom poético.

“JIBOIA”  © Josias de Araujo Yube

Se estudantes acreanos em geral têm muito o que aprender com a floresta, a escola indígena tem nos fornecido mestres, no sentido pleno da palavra, nada acadêmicos.

São eles os que elaboraram o método que constitui a escola indígena: a experiência de autoria, que puderam realizar um dia naquele laboratório chamado Comissão Pró-Índio do Acre, e que até hoje continuam, por conta própria, como é o caso de Joaquim Mana, Isaias Ibã, Norberto Tene, João Pupe, Joaquim Taskha, Josimar Jaminawa, Isaac Pianko, Nani Yawanawá, Zezinho Yube…e tantos outros que são referência na produção de material didático.

São mestres das múltiplas linguagens, da leitura e da escrita, semioticamente falando.

Esperamos que esses mestres de todas as etnias aceitem também os espaços da UFAC como laboratório, onde terão condições de elaborar seus projetos de ensino.

Acompanhar esse processo nos interessa profundamente, porque se trata de um ensino que não se localiza exatamente numa sala de aula, ou em livros, mas está no gesto escritural, não importa a linguagem.

O modelo de escola adotado na república brasileira está sendo questionado da pior forma pelo atual governo, que propõe inclusive sua extinção, porque não tem proposta nenhuma. Quanto aos educadores, queremos encontrar propostas no final de nossos projetos de pesquisa, ajudar os professores indígenas a iluminar seus métodos.

Essa ajuda seria através do apoio efetivo aos mestres e aos professores em formação. Podemos reuni-los com diversos cientistas, artistas, educadores, pesquisadores de qualquer área do conhecimento, para que possam exercitar a tradução, afinar a escuta, experimentar a textualidade, viver o processo da autoria coletiva. Toda experiência é uma experiência de escrita e o que se escreve é a autoria mesma, como diriam alguns mestres europeus pós-estruturalistas.

O desafio do Laboratório, portanto, é se tornar um espaço para que o conceito de interculturalidade seja o substrato de uma experiência indígena, capaz de apontar caminho para uma utopia, a escola.

A lição da jiboia, para nós, que ouvimos cantos, é mirar no caminho.

2 thoughts on “A Jiboia”

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.