Curso de silêncio de 2020

Talvez a boa nova anunciada pela natureza seja que a vida é para sempre.
Mas antes, abrir os olhos e ver é a razão do amor, a causa-cópula, a causa amante.
Penahã e Shuku shukuwe são dois termos mestres no ensino da escrita verdadeira dos Tikmu’un (nós, os humanos) e dos Huni Kuin (homem verdadeiro).
No livro Penahã, do professor Rafael Maxakali, tikmu’un da aldeia Cachoeira, há uma história das crianças cegas por terem visto o sexo de suas mães.
Em O Livro Vivo, organizado por Agostinho Manduca Mateus ou Ike Muru Huni kuin, a história é a dos ancestrais que se transformaram em plantas medicinais da floresta. 

© LABInter

Agora vivem perto das aldeias, pertencendo também às quatro famílias do povo Huni Kuin.

Escuto o termo Penahã/ver e o shuku shukuwe/copular, como histórias do processo de transformar pelo olhar, como na frase de Llansol: qualquer arte visual, tomada nos lábios, me encanta. Vou aprendendo com esses mestres que a lógica do texto é a mesma da vida.

Leio no curso de silêncio de 2020: “Mas, se quem pensar não der o seu corpo, o que pensará?” .

Rafael e Agostinho escreveram no movimento, tendo o texto como risco ou rabisco.
Entrando no mundo numa casa ao lado da floresta, vou aprendendo a ver, no sentido do Penahã:
“Em maxakali quando falam deslizam de nossos corpos atravessam nossa pele e o rio. “Sim’bora
com folhas e passarinhos”. Com pouco o mundo se acaba.”
E aprendendo a copular pelos olhos com a paisagem.
Como na história da jibóia, que encanta o huni kuin e o leva para o fundo do lago, de onde ele
voltará conhecedor da verdadeira natureza da sedução – o desejo de saber, ver o real.

Aula 1

Aula 2

Aula 3

Aula 4

Aula 5

Aula 6

5 thoughts on “Curso de silêncio de 2020”

  1. Inês,

    que alegria ver nossas aulas se enredando, como num rizoma. dessas aulas, sabemos, não somos nós, as mestras, mas o texto, a floresta, a jibóia, a paisagem. disso os índios sempre souberam e Llansol parece ter sabido, um pouco antes de alguns escritores que também compõem nossa linhagem. você, que sabe disso desde que teve a ideia genial de enredar a textualidade llansoliana às textualidades indígenas, e que está agora aí, no coração da floresta, há de nos trazer de volta a boa nova, agora anunciada não só à natureza, mas pela própria natureza. Como escreveu Llansol, “o dom é a única retribuição do dom”. do lado de cá, agradeço por tão generosa anunciação.

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