Meu encontro com Dom Pedro Casaldáliga

© Dagmar Talga

Era o ano de 1978 e eu deveria me formar no Curso de Comunicação Social em dezembro. Mas não foi assim. No meio do ano, larguei tudo, joguei uma mochila nas costas, deixei meus discos e livros para pagar as contas do barraco e fui. Fui atrás do sonho, guiada pelo desejo – as duas únicas potências capazes de, verdadeiramente, guiar um ser humano.

Eu queria conhecer os índios, queria viver com eles, para, quem sabe, descobrir o segredo de Maíra (claro, eu havia lido o romance de Darcy Ribeiro), o segredo de povos que pareciam não padecer da angústia civilizacional que, eu sabia, estava nos levando para o buraco. Devia haver outras formas de viver, de se relacionar com o mundo, que não essa, predatória, violenta e insensível, na qual, segundo os versos de Drummond, os delicados prefeririam morrer. Após o suicídio de dois amigos, eu havia me colocado a missão de forjar um mundo no qual os delicados pudessem sim viver. Tinha clareza de que somos todos uns cristais – basta uma nota desafinada para nos trincar irreparavelmente. Mas nosso mundo, nossa vida, parecia aquele touro solto na loja de porcelanas – nada ficava intacto, tudo se esfacelava.

Aos 20 anos, a visão do mundo se acabando, galopando para o precipício, me deixou pendurada numa ponte pênsil com as juntas endurecidas. Poderia simplesmente cair; mas achei um jeito de voar. O que me ensinou as asas foi um livro, e com ele voei sobre o abismo, sobre o medo, sobre as sombras, em direção ao que o título anunciava: Creio na Justiça e na Esperança.

A leitura desse livro de Dom Pedro Casaldáliga foi o empurrão que faltava. Decidi ir ao seu encontro. Sabia que ele era bispo em São Félix do Araguaia e decidi ir até lá. Viver lá, ficar por lá, conhecer os Tapirapé, povo indígena sobre o qual ele falava… Comprei, no Mercado Central de Belo Horizonte, uma mochila de lona verde com correias de couro, muito parecida com uma que meu pai usava para suas pescarias no São Francisco; comprei uma rede; coloquei uma toalha, poucas roupas, um caderno e um livro – Obras Completas de García Lorca, em capa dura e papel bíblia – deixei os discos e livros para o Tchê, por conta das contas a pagar da casinha que dividíamos e que carinhosamente chamávamos de barraco, e fui.

Tracei um caminho: iria primeiro para Goiânia, onde meu pai tinha um grande amigo, Zé Lobo. Papai me deu o endereço e eu fui. Naquele tempo sem internet, sem celular, quando fazer um interurbano era uma aventura cara e nem sempre bem sucedida, fui com as indicações que tinha e com a vontade de ir. Fiquei uns dias na casa da família Lobo. Todos os dias, o amigo de meu pai chegava do trabalho, vestia um roupão e ouvia música clássica numa saleta só dele. Acho que também tomava um conhaque – ou isso já será a minha imaginação interferindo na memória. Ele me chamava para aquela saleta e lá ouvíamos música em silêncio, depois conversávamos. Eu gostava da conversa dele, daquela calma, da paz que sentia. Tempos depois, meu pai me disse que seu amigo comentou: ela é muito jovem, tão jovem, mas parece decidida mesmo a ir viver com os índios. Lembro que ele me perguntava sobre meu desejo, sobre meus sonhos, sobre o que eu queria para minha vida, e eu falava, sem medo.

Quando parti de Goiânia, Donana, a mulher, me deu uma matula de frango com farofa. Senti gratidão; era como Jacinta, a mulher que me criou, aquela com quem mamãe confiava nos deixar, aquela que eu sabia que me amava a seu modo rude. A mesma matula, como um carinho.

Eu sabia que São Félix ficava na beira do rio Araguaia; então, peguei um ônibus para Aruanã, que era na beira do Araguaia e o mais longe que iam os ônibus saindo de Goiânia. Foi uma viagem longa, com muita poeira, eu a única mulher – e jovem e branca e sozinha – naquele ônibus que cortava uma paisagem quase sertaneja, subindo e descendo gente pelo caminho.

À noite, chegamos a Aruanã. Quente, mosquitos, sem luz. Uma cidade às escuras, com luzes apenas nas casas, e poucas. Tive vontade de chorar. Perguntei por uma pensão e alguém me indicou a casa de uma mulher que costumava hospedar viajantes. O motorista me olhou com preocupação e avisou: o ônibus volta amanhã à tarde. Me explicou que ali era fim de linha, que não havia como seguir. Que não se podia ir a esse lugar que ele não sabia onde ficava, esse São Félix do Araguaia, mas que com certeza não era por ali.

Procurei a senhora, que me abriu a porta e confessou: vendi a pensão, estou indo embora, não recebo mais hóspedes. Insisti, ela viu meu desamparo e disse: só por uma noite, está bem. E me mostrou um quarto, sujo, com uma luz fraquinha. Do lado de fora da casa, no quintal, um banheirinho fedorento e sujo. Um balde com água e uma caneca para me banhar.

Vi muitas baratas. Gordas, enormes. Senti pena de mim mesma – o que eu estava fazendo ali, sozinha e meio perdida, num lugar estranho, num quarto sujo e com baratas? Não consegui dormir; passei a noite lendo uma revista que havia comprado para a viagem e remoendo a angústia que apertava meu coração. Aonde minha busca estava me levando?

Quando o dia clareou, o mundo era outro. A beleza do rio Araguaia inundou meu coração. Fiquei na barranca do rio, olhando, olhando. A cidadezinha me pareceu simpática. Perguntei pelos índios, me mandaram para um bairro meio afastado, formado por barracos muito simples, casinhas de taipa e palha. Ali viviam algumas famílias Karajá, as primeiras que conheci. Conversei com algumas mulheres e vi as crianças brincando na água. O banho infinito, o momento delicioso do dia.

Mas Aruanã não era, definitivamente, meu destino. Era um fim de linha e precisei voltar. Entender que os caminhos do rio não eram os mesmos caminhos das rodovias e que, embora no mapa tudo parecesse simples e fácil – eu imaginava ir por rio de Aruanã a São Félix – na prática, não era assim.

Voltei. Descobri que o caminho era por Barra do Garças – e lá fui eu, outras longas horas de viagem. Tudo emendado, sem fôlego de descanso. Novamente, cheguei à noite em Barra do Garças e fui direto para um hotelzinho ao lado da rodoviária. Me avisaram: o guichê para a compra das passagens abre cedo, é preciso estar lá às 5 horas da manhã, o ônibus sai às 7 horas. Dormi mal e, às cinco, lá estava eu com minha mochila. Mas na minha frente havia já umas quantas pessoas. À luz parca da rodoviária, com o dia que ainda ia clareando – vi o perfil dele. Era ele, com certeza, o mesmo da foto na orelha do livro. Aquele nariz, aquela magreza, aquela aura. Estremeci, criei coragem e perguntei. Ele respondeu com educação e um certo cuidado. Eu soube, então, que ali começava minha jornada; que todas as voltas, erros e demoras tinham me feito chegar ali, naquela madrugada, e encontrar Dom Pedro na fila do ônibus.

A viagem foi longa, calorenta e cansativa. Vi o correntão funcionando: dois tratores e uma corrente, derrubando tudo, limpando o mato. Era o Mato Grosso virando plantio de arroz. O mato, grosso ou fino, era derrubado sem dó. Limpeza, diziam os gaúchos – assim chamavam a todos os que estavam ali abrindo aquela fronteira agrícola. A maioria parecia ser mesmo gaúcha.

Ao meio dia, o ônibus parou numa birosca à beira da estrada e descemos para tomar algo. Quase não havia nada, uns biscoitos velhos e refrigerantes, um café doce e ralo. De repente, tive uma visão de filme: parou uma caminhonete e dela desceram vários índios, todos de calção vermelho, camiseta branca e boné. Como se fosse uma coreografia, todos tiraram o boné e seus cabelos longos bateram nos ombros. Eram lindos, os Xavante. Entraram com força, falando em sua língua, soberanos. Não davam bola pra ninguém, exceto para Dom Pedro, com quem foram falar, respeitosamente. Fiquei admirada da diferença de comportamento, de como ignoravam a todos nós e conversavam com ele demonstrando respeito e amizade. Tomaram coca-cola, saíram da mesma forma que entraram e a caminhonete levantou poeira. Lá se foram os Xavante e deixaram a imagem de sua beleza altiva gravada fundo no meu coração.

No ônibus cheio, eu era uma das poucas mulheres, mas com certeza era a única jovem, branca e sozinha. Não pude conversar com Dom Pedro como gostaria. Ele me olhava de longe e imagino o que pensaria dessa menina que dizia que o conhecia do livro e que estava indo a São Félix para estar com ele.

No fim da tarde, o ônibus quebrou. Muito buraco, muita poeira, muito calor, e por fim o ônibus arriou – não ia mais para lugar nenhum. Que descessem todos. As pessoas pegaram suas trouxas e sacolas e foram se espalhando pelos caminhos do mato. Restamos cinco pessoas: Dom Pedro, seus três companheiros, e eu. Ali perto havia um galpão dos gaúchos – tudo era grande e parecia coisa de faroeste. Era uma das grandes fazendas da região, dedicada ao plantio de arroz. Fomos até lá pedir pouso. Os peões do galpão logo voltaram com o dono, que insistiu para que o bispo fosse dormir na casa grande, na sede da fazenda, mas ele disse que ficaria ali no galpão com seu povo, seus companheiros. E eu estava incluída.

Havia água de uma bica onde nos lavamos mais ou menos e logo me perguntaram se eu tinha rede. Orgulhosa, tirei minha rede novinha da mochila e mostrei: tinha, sim! Então, me perguntaram: e a corda? Olhei com cara de boba. Um deles se tornou meu anjo da guarda e disse: vamos repartir nossas cordas com você. Sem corda, não adianta ter rede. E amarraram minha rede. Daí veio a próxima pergunta: e a coberta, cadê? E eu, perplexa: pensava que na Amazônia, no Mato Grosso, nessas terras quentes, não havia necessidade de coberta. Deram risada: de noite esfria, menina. Então me lembrei da toalha de banho – e não foi a última vez que uma toalha me cobriu da friagem da noite.

Tudo para mim era descoberta. Tudo eram imagens, sons, cheiros. Deitamos nas redes, cansados. A noite mansa cobria tudo. Os barulhinhos do mato cresciam. Era a primeira vez que eu dormia numa rede, sob o teto de um galpão, sem paredes à minha volta, ouvindo o barulho do mato e cercada de Dom Pedro e seus companheiros de viagem. Do que mais me recordo, naquela noite, é da voz do alfaiate, o meu anjo. Ele tinha cara de índio; era um homem forte e doce. Começou a cantar. Cantigas do Araguaia. Aquelas cantigas nos embalaram e dormi no encantamento daquilo tudo. Não era sonho, não era um filme – era eu em minha jornada.

De manhã, outros gaúchos nos deram carona. Era uma caminhonete grandona, dessas potentes. Insistiram para que o bispo fosse na frente, na cabine. Ele, porém, disse que só aceitava se fôssemos fazendo um revezamento. E assim foi: a cada tanto tempo, um de nós ia para a cabine. Na carroceria dessa caminhonete finalmente continuamos a conversa do ônibus. Expliquei a Dom Pedro que havia lido seu livro e queria ir trabalhar com ele, queria conhecer os Tapirapé, os Karajá, queria ficar na sua prelazia. Que eu só podia acreditar numa igreja como a dele, despojada e, por isso mesmo, tão rica. Um jeito de ser igreja que levava a crer na justiça e na esperança. Nem falei que tinha rompido com a igreja católica anos antes e que o livro dele estava tornando possível colar a porcelana quebrada. Ele, com muito jeito e cuidado, me disse que não poderia me hospedar, mas me arranjaria um lugar para ficar, e que eu iria conhecer sua equipe.

E assim foi. O alfaiate me levou à casa de uma mulher que tinha duas filhas e que me abrigou. Gente simples, casa pobre. Eu dividia o colchão de palha sobre o estrado com uma de suas filhas e a mãe dormia em outro, com a filha menor. Elas tinham um restaurante simples, todo de madeira, na beira do rio, ao qual o quarto era acoplado. Eu comia com elas. Conversava. Via a pobreza da casa e sabia que não tinha dinheiro para pagar nada, nem para comprar comida. Meu dinheiro tinha chegado ao fim, mas, como eu tinha chegado ao meu destino, isso não importava: a confiança indestrutível da juventude. Fiquei amiga da menina com quem dividia a cama e agradecida à mãe, que me alimentava. No dia que fui embora, tirei a correntinha de ouro com uma água marinha – a única coisa de algum valor material que eu tinha – e deixei, em gratidão.

Conheci a equipe da Prelazia. Vi a simplicidade de tudo. Aquele bispo que usava anel de coco e que tinha sido sagrado levando um remo como báculo, aquele que ouviu a zombaria dos centuriões que diziam, ao ameaçá-lo: vai fazer o que, vai escrever de novo? Aquele que usava a palavra para defender o povo. Aquele que era poeta. Aquele que era onça pintada, jaguaretê, com a coragem dos loucos e dos santos.

Com ele, conheci os Karajá que moravam em frente a São Félix, na Ilha do Bananal, Aldeia Santa Isabel. Vi mais de uma vez homens e meninos atravessarem o grande rio a nado, de dia e de noite. Me impressionava aquela intimidade com a água, com o rio e seus mistérios. Ouvi história de jovens Karajá afogados por se atirarem no rio bêbados, à noite, para voltar para casa. Via nas ruas os pescadores carregando peixes maiores que eu, atravessados num pau, e que eram chamados de filhote. Eu pensava: se esse é o filhote, como será o adulto? Ali também fiquei sabendo do candiru e suas traquinagens e mazelas; as infinitas histórias de pessoas que entravam nuas no rio e o candiru aproveitava para entrar nos canais mais recônditos, uretrais. Depois, todo o drama para tirar o incômodo candiru, que abria duas esporas laterais e se fincava ali, daqui não saio, daqui ninguém me tira. Só sentando em água bem quente, pra matar o bichinho e ele fechar suas esporas e escorrer para fora da pessoa.

Mas não pude ficar. Ele conversou comigo com suavidade, explicando que a equipe já estava completa, coisa e tal, e só muito depois fui entender: era o ano de 1978, a ditadura comendo solta, a guerrilha do Araguaia da qual eu, na minha inocência, nem sabia da existência… e aparece uma menina branca, do sudeste, sem nenhum lastro, dizendo que se havia encantado com o livro dele e querendo viver ali. Muitos anos depois, contando essa história, uma amiga comentou: ele te protegeu. Eu acho que sim.

De qualquer maneira, como eu pensava que ali era o ponto final de minha jornada, não tinha mais dinheiro para voltar. E lá se foi Dom Pedro pedir carona para mim no avião Bandeirante da FAB, na base que ficava no Bananal. Entendi que não ficaria ali, com Dom Pedro, mas que minha jornada em direção aos índios estava apenas começando. Ele havia sido a porta de entrada, que se abria para um outro caminho. Entrei no avião da FAB com a mochila mais leve, o coração ampliado e o desejo fortalecido.

Texto escrito por Mara Vanessa

 

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