O Livro das Comunidades – Livro Indígena

Eu leio assim esse livro:

“Há três coisas que metem medo: a primeira, a segunda e a terceira.

A primeira chama-se vazio provocado, a segunda é dita o vazio continuado, e a terceira é também chamada o vazio vislumbrado.

Ora sabe-se que o Vazio não se apoio sobre Nada. 

Há, assim, três coisas que metem medo.

A primeira é a mutação. Ninguém sabe o que é um homem. Os limites da espécie humana não são consequentemente conhecidos. Podem, no entanto, ser sentidos. O mutante é o fora-de-série, que traz a série consigo. Este livro é um processo de mutantes, fisicamente escorreitos. É um processo terrível. Convém ter medo deste livro.

© LABInter

Há, como disse, três coisas que metem medo.

A segunda a Tradição, segundo o espírito que muda onde sopra. 

Todos cremos saber o que é o Tempo, mas suspeitamos, com razão, que só o Poder sabe o que é o Tempo: a Tradição segundo a Trama da Existência. 

 

Este livro é a história da Tradição, segundo o espírito da Restante Vida. Mais uma razão para o não tomarmos a sério.

Há, pela última vez o digo, três coisas que metem medo. A terceira é um corp’a’screver. Só os que passam por lá, sabem o que isso é. E que isso justamente a ninguém interessa.

O falar e o negociar o produzir e explorar constroem, com efeito, os acontecimentos do Poder. O escrever acompanha a densidade da Restante Vida, da Outra Forma de Corpo, que, aqui vos deixo qual é: a Paisagem.

Escrever vislumbra, não presta para consignar. Escrever, como neste livro, leva fatalmente o Poder à perca de memória. E sabe-se lá o que é um Corpo Sem Memórias de Paisagem.

Quem há que suporte o Vazio?

Talvez Ninguém, nem Livro.”

Jodoigne, 4 de janeiro de 1977

A. Borges

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